Quando cuidar do outro faz você esquecer de si: um olhar sistêmico sobre os lugares que ocupamos nas relações
Você aprendeu a cuidar de todo mundo antes de aprender a cuidar de si?
Talvez você seja aquela pessoa que percebe rapidamente quando alguém não está bem.
Você escuta, acolhe, tenta ajudar, evita conflitos e muitas vezes se coloca disponível para resolver aquilo que está ao seu redor.
Mas, quando chega a sua vez de precisar de cuidado, talvez você não saiba muito bem o que fazer.
Pode ser mais fácil perceber a necessidade do outro do que reconhecer a própria. Mais fácil oferecer ajuda do que pedir. Mais fácil dizer “está tudo bem” do que admitir que alguma coisa ultrapassou seus limites.
E, pouco a pouco, cuidar de si pode acabar ficando sempre para depois.
Mas será que aprendemos a nos relacionar dessa maneira por acaso?
Os lugares que aprendemos a ocupar
Ao longo da vida, ocupamos diferentes lugares dentro das nossas relações. A família, especialmente, é um dos primeiros espaços em que aprendemos sobre cuidado, afeto, conflitos, responsabilidades e formas de convivência.
Em algumas famílias, uma pessoa pode assumir muito cedo o papel de cuidar, mediar conflitos, acolher os demais ou atender às necessidades daqueles que estão ao seu redor.
Talvez tenha aprendido que precisava ser forte.
Talvez tenha percebido que, quando alguém estava mal, era melhor deixar as próprias necessidades de lado.
Talvez tenha se acostumado a evitar conflitos para manter a harmonia da família.
Essas experiências podem contribuir para a construção de padrões relacionais que, posteriormente, aparecem também em outros vínculos.
Isso não significa que exista uma única causa para a maneira como nos relacionamos. Nossas experiências são diversas e estão inseridas em diferentes contextos. Mas olhar para a nossa história pode ajudar a compreender como alguns lugares que ocupamos nas relações foram sendo construídos.
Quando cuidar do outro passa a significar esquecer de si
Na perspectiva estrutural de Salvador Minuchin, as relações familiares podem ser compreendidas a partir da forma como seus membros se organizam, dos papéis que assumem e das fronteiras estabelecidas entre eles.
As fronteiras ajudam a organizar a proximidade e a diferenciação dentro das relações: permitem que exista vínculo e pertencimento, mas também espaço para que cada pessoa reconheça suas próprias necessidades, responsabilidades e limites.
Quando essas fronteiras se tornam pouco claras, pode ser mais difícil perceber onde termina a responsabilidade pelo outro e começa a responsabilidade por si.
É nesse contexto que algumas pessoas podem experimentar uma sensação constante de que precisam estar disponíveis, resolver problemas, evitar desentendimentos ou sustentar emocionalmente quem está ao redor.
Cuidar deixa de ser apenas uma escolha e pode começar a parecer uma obrigação.
E, quando isso acontece, talvez você esteja tão atento ao que o outro precisa que tenha dificuldade de perceber o que está acontecendo dentro de você.
O cuidado também precisa incluir você
Cuidar de si não significa deixar de cuidar das pessoas que ama.
Também não significa colocar as próprias necessidades acima das necessidades de todos os outros.
Significa reconhecer que você também faz parte das relações das quais cuida.
Quando conseguimos perceber nossos limites, reconhecer nossas emoções e comunicar nossas necessidades, podemos começar a construir relações em que o cuidado não dependa do abandono de nós mesmos.
Você pode estar presente sem estar disponível o tempo inteiro.
Pode ajudar sem assumir todas as responsabilidades.
Pode ouvir sem precisar resolver.
Pode amar alguém sem precisar abrir mão de todo o seu espaço.
E isso também pode produzir mudanças na forma como as pessoas ao nosso redor se relacionam conosco.
Aquilo que construímos em nós também aparece nas nossas relações
Nossos relacionamentos não acontecem no vazio.
Levamos para eles nossas histórias, expectativas, formas de comunicação, experiências familiares e maneiras que aprendemos de lidar com proximidade, conflitos, cuidado e limites.
Por isso, quando começamos a modificar nossa maneira de nos posicionar, também podemos modificar os padrões de interação dos quais participamos.
Não significa que somos responsáveis pelo comportamento do outro.
Significa reconhecer que cada relação é construída na interação entre pessoas e que, dentro dessa interação, podemos encontrar possibilidades diferentes de nos posicionar.
Às vezes, uma mudança começa de maneira bastante simples: quando uma pessoa que sempre dizia “sim” começa a experimentar dizer “não”; quando quem sempre cuidava percebe que também pode pedir ajuda; quando quem tentava resolver os conflitos de todos começa a reconhecer que nem todo conflito precisa ser seu.
E você, que lugar tem ocupado nas suas relações?
Talvez valha a pena olhar para algumas perguntas:
Eu consigo perceber minhas necessidades ou costumo perceber primeiro as necessidades dos outros?
Quando alguém está mal, sinto que preciso fazer alguma coisa para resolver?
Tenho dificuldade de dizer não por medo de decepcionar alguém?
Consigo reconhecer aquilo que é minha responsabilidade e aquilo que pertence ao outro?
Existe espaço, nas minhas relações, para que eu também seja cuidado?
Essas perguntas não existem para produzir culpa.
Elas são um convite para olhar para a própria história e compreender como determinados padrões relacionais foram sendo construídos e como continuam aparecendo no presente.
Na psicoterapia, esse olhar pode ajudar a ampliar a compreensão sobre os lugares que ocupamos nas nossas relações, os limites que conseguimos estabelecer e as possibilidades que existem para construir formas diferentes de estar com o outro.
Porque cuidar de si não significa deixar de cuidar.
Talvez signifique aprender que você também precisa estar incluído naquilo que oferece aos outros.
E, quando começamos a reconhecer nosso próprio espaço, nossas necessidades e nossos limites, podemos descobrir que cuidar de si não é afastar-se das relações.
É encontrar uma maneira mais saudável de estar nelas.
Franciely Ribeiro
Psicóloga | CRP 12/30329
Vamos olhar para aquilo que acontece nas suas relações com mais compreensão e menos culpa.
Referências
MINUCHIN, Salvador. Families and Family Therapy. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1974.